Do hambúrguer de minhoca às eleições – o crescimento das “fake news”

02 abril 2019 / Notícias

Na guerra entre verdadeiro e falso, como agências de propaganda, veículos de jornalismo e plataformas digitais – devem agir? E o governo? Qual seu papel?

Em dois anos, metade das notícias na internet serão falsas, segundo Antonio Caño, diretor do jornal espanhol “El País”. A previsão fica ainda pior quando lembramos que nesse período fértil das “fake news” teremos, no Brasil, eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Notícias falsas, já sabemos, causam estragos, não só no meio político, mas para marcas e para a sociedade. Lembra do hambúrguer de minhoca do McDonald’s? A lenda pré-internet até hoje afasta gente das lanchonetes (tente digitar no Google “Mc”, de McDonald’s: hambúrguer de minhoca ainda vem entre as primeiras sugestões de busca).

Pensando bem, dá saudade do tempo em que notícia falsa era só um sanduíche de minhoca. Na era das redes sociais, lidamos com uma avalanche de mentiras que pipocam não só no WhatsApp, no Facebook, no YouTube, mas também em memes, no Twitter, em todo lugar, em todo momento. E nem sempre são tão óbvias quanto um hambúrguer de vermes de jardim. Vai dizer que você nunca ficou em dúvida diante de um post supercompartilhado?

Na guerra entre verdadeiro e falso, como a indústria da comunicação – e aqui me refiro a agências de propaganda, veículos de jornalismo e plataformas digitais – devem agir? E o governo, qual seu papel? O jornalismo profissional deve ser privilegiado. A fonte de notícia com credibilidade (seja um grande jornal, uma agência de notícias, um blogueiro respeitado) deve ter tratamento especial pelas mídias sociais para se diferenciar do que é inventado para lesar marcas, candidatos – ou só para gerar fluxo.

O que vimos recentemente, porém, com o novo algoritmo do Facebook, que prioriza postagens de amigos e família, é exatamente o contrário. Reduz o alcance de conteúdo distribuído pela imprensa. As plataformas não podem simplesmente dizer que não têm como identificar fontes de notícias falsas – e por isso tiram tudo de uma vez da sua “timeline”, tanto o falso, quanto o verdadeiro. Elas têm tecnologia para reconhecer você em suas fotos. Para decidir que anúncios exibir para cada usuário e muito mais. Como não conseguem distinguir “fake news”, espalhadas por robôs que republicam conteúdo, de notícias verdadeiras?

Considerando que grandes redes sociais são monopólios da atenção do internauta, governos (e não apenas o brasileiro) não podem ficar de fora. Não defendo de maneira alguma a censura. Mas uma legislação que trate do caso é essencial e urgente. Esses conglomerados de disseminação de informações não podem continuar operando cheias de segredos e com tão pouca transparência. A pressão dos governos, da Justiça e do Poder Legislativo é fundamental. A legislação eleitoral brasileira, por exemplo, prevê punição para notícias falsas espalhadas em campanha política por TV, meios impressos e rádio. Nem cita internet.

Mas ministros do Tribunal Superior Eleitoral têm se reunido com representantes do Google, Facebook, Twitter e WhatsApp para discutir formas de combate às “fake news”. Sabe-se pouco, até agora, da colaboração dessas empresas no combate. Mesmo após a eleição de Donald Trump, em 2016, nos Estados Unidos – uma das consequências mais maléficas até agora da proliferação das notícias falsas – pouco foi feito por essas plataformas em busca de mais transparência.

Aqui, as notícias falsas crescem a passos largos. Mais de 10% das interações no Twitter nas eleições de 2014 foram geradas por robô, segundo o diretor de análise de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas, Marco Aurélio Ruediger. No impeachment, em 2016, essas interações propagadas por robôs chegaram a mais de 20% do debate.

As “fake news”, nesse cenário, são um prato apetitoso para o internauta desavisado. Brilham na mente de pessoas sedentas por histórias mirabolantes. Confirmam preconceitos de gente intolerante. E se espalham como rastro de pólvora. Uma cadeia digital que se autoalimenta, enriquecendo os grandes monopólios de mídia social e empobrecendo o debate de ideias.

O assunto é tão sério que dois dos maiores anunciantes do planeta, Unilever e Procter & Gamble, ameaçam reduzir radicalmente suas verbas de anúncios digitais. Não querem suas marcas em plataformas que possam associar, por meio de mídia programática, seus anúncios a “fake news”, pornografia ou terrorismo. O corte, segundo Keith Weed, vice-presidente de marketing da Unilever, pode pressionar as plataformas a tornarem suas políticas mais transparentes.

Paulo Sant’Anna é vice-presidente de mídia da agência mcgarrybowen e presidente do Grupo de Mídia de São Paulo